2. Quem realiza a vocação?

José Bernardo
Série Vocação: sete estudos bíblicos nos evangelhos para entender vocação conforme a Bíblia. A grande maioria dos alunos da escola de liderança para adolescentes e jovens – Pacificadores é de vocacionados ao ministério. Nesta série de estudos bíblicos você encontrará a visão bíblica (nos evangelhos) sobre este assunto.

Todos são vocacionados? Quem vocaciona? Por mais ampla que seja a vocação, por mais que todas as pessoas, em algum momento lidem com essa realidade, você sempre pensará na vocação de modo particular. Eu sou vocacionado? Qual é a minha vocação? O que vou fazer a esse respeito? Cada pessoa, e você também, pensa na vocação a partir de si mesmo. Isto está certo? É assim que você vai descobrir a sua vocação? Hoje, quero caminhar com você através deste tema, para descobrirmos juntos a quem se refere a vocação, quem são as pessoas envolvidas nela.

Leitura bíblica: João 6:60-71
60Ao ouvirem isso, muitos dos seus discípulos disseram: “Dura é essa palavra. Quem pode suportá-la?”
61Sabendo em seu íntimo que os seus discípulos estavam se queixando do que ouviram, Jesus lhes disse: “Isso os escandaliza? 62Que acontecerá se vocês virem o Filho do homem subir para onde estava antes? 63O Espírito dá vida; a carne não produz nada que se aproveite. As palavras que eu lhes disse são espírito e vida. 64Contudo, há alguns de vocês que não creem”. Pois Jesus sabia desde o princípio quais deles não criam e quem o iria trair. 65E prosseguiu: “É por isso que eu lhes disse que ninguém pode vir a mim, a não ser que isto lhe seja dado pelo Pai”.
66Daquela hora em diante, muitos dos seus discípulos voltaram atrás e deixaram de segui-lo. 67Jesus perguntou aos Doze: “Vocês também não querem ir?”
68Simão Pedro lhe respondeu: “Senhor, para quem iremos? Tu tens as palavras de vida eterna. 69Nós cremos e sabemos que és o Santo de Deus”.
70Então Jesus respondeu: “Não fui eu que os escolhi, os Doze? Todavia, um de vocês é um diabo!” 71(Ele se referia a Judas, filho de Simão Iscariotes, que, embora fosse um dos Doze, mais tarde haveria de traí-lo.)

[V] Senhor, para quem iremos?
É interessante como os dois milagres relatados no início do capítulo 6 já distinguem dois públicos: a multiplicação dos pães para muitos discípulos e a surpreendente aparição no meio do mar para os doze. Mesmo na multiplicação dos pães o contato de Jesus com os muitos discípulos, designados como ‘povo’, é diferente do relacionamento com os doze, chamados de ‘seus discípulos’. A esses eventos distintivos seguiu-se um discurso intenso, proferido na sinagoga em Cafarnaum, que poderia ser resumido na ideia de o povo querer o que Jesus não oferecia e Jesus oferecer o que o povo não queria. É depois daquele discurso que novamente se observa a clara distinção entre os ‘muitos discípulos’ e os doze.

  • Qual foi a reação dos ‘muitos discípulos’ ao ouvirem o discurso de Jesus na sinagoga em Cafarnaum e como Jesus avaliou a situação? 60Ao ouvirem isso, muitos dos seus discípulos disseram: ‘Dura é essa palavra. Quem pode suportá-la?’ 61Sabendo em seu íntimo que os seus discípulos estavam se queixando do que ouviram, Jesus lhes disse: ‘Isso os escandaliza? 62Que acontecerá se vocês virem o Filho do homem subir para onde estava antes?’”  Antes de tudo, note que João classifica o primeiro grupo como ‘muitos dos seus discípulos’, ou seja, muitos dentre as pessoas que manifestavam interesse em aprender de Jesus. Cinco característica da reação ao discurso de Jesus podem ser divisadas aqui, duas oferecidas pela fala daqueles discípulos e três pela avaliação do Mestre: a) o discurso era duro, literalmente seco; b) eles não tinham o poder ou a habilidade de ouvir; c) eles estavam se queixando, murmurando, ou seja, não manifestavam o interesse em aprender que caracteriza os discípulos; d) a palavra de Jesus os escandalizava, isto é, tornou-se uma armadilha para eles; e) na medida em que Jesus subisse para onde estava antes (subindo primeiro na cruz), a situação ficaria ainda mais difícil.
  • Conforme Jesus, em que condições suas palavras poderiam ser aceitas? 63O Espírito dá vida; a carne não produz nada que se aproveite. As palavras que eu lhes disse são espírito e vida. 64Contudo, há alguns de vocês que não creem’. Pois Jesus sabia desde o princípio quais deles não criam e quem o iria trair. 65E prosseguiu: ‘É por isso que eu lhes disse que ninguém pode vir a mim, a não ser que isto lhe seja dado pelo Pai’”. É interessante notar que aqueles muitos discípulos disseram não ter o ‘poder’ de ouvir as palavras de Jesus. Para isso usavam o verbo cognato do substantivo ‘dunamis’, o poder que Jesus disse que o Espírito Santo daria. A essa falta de poder, o Senhor respondeu que ‘O Espírito dá vida’. Aqueles discípulos crerem e perseverarem depedia de uma ação trinitária: a) o Espírito dar vida; b) o Filho dar a palavra; c) o Pai dar o vir. É óbvio, no entanto, que a carne não lhes deu nada proveitoso, eles não creram nas palavras de Jesus e é implícito que não receberam o vir do Pai.
  • Como esses ‘muitos discípulos’ se distinguiram dos doze? 66Daquela hora em diante, muitos dos seus discípulos voltaram atrás e deixaram de segui-lo. 67Jesus perguntou aos Doze: ‘Vocês também não querem ir?’” É interessante que aos ‘muitos discípulos’ Jesus disse insistiu que as palavras que eles acharam secas e para que não tinham poder de ouvir, eram palavras de espírito e vida. Aos doze, que receberam suas palavras como de ‘vida eterna’ (v 68), ele perguntou se não queriam deixa-lo também. A pergunta foi feita esperando a resposta negativa, “Pois Jesus sabia desde o princípio quais deles não criam e quem o iria trair”. Diferente dos doze, os ‘muitos dos discípulos de Jesus’ tinham um lugar para voltar e deixaram de andar com Jesus, expressão que descreve o discipulado. Desde então, muitos dos discípulos continuaram voltando para trás e deixando de andar com Jesus. Alguns devem ter permanecido. Aos doze, no entanto, Jesus falou em particular.
  • Que razões Pedro apresentou em nome dos doze para sua perseverança enquanto muitos discípulos voltaram atrás? 68Simão Pedro lhe respondeu: ‘Senhor, para quem iremos? Tu tens as palavras de vida eterna. 69Nós cremos e sabemos que és o Santo de Deus’”. Ao negar, como Jesus esperava, apartarem-se de Jesus, Pedro apresenta três razões para a perseverança: a) eles não tinham para o que ou quem se apartar do Senhor, o que pode ser remetido ao terem deixado tudo; b) eles consideraram que as palavras de Jesus produziam vida eterna, exatamente como Jesus disse que eram e não como ‘muitos dos discípulos’ consideraram, secas; c) eles criam (racionalmente, pois a fé implica em ouvir até se convencer) e sabiam (empiricamente, já que pressupõe a experiência pessoal) que Jesus era o Santo de Deus (separado, dedicado, exclusivo).
  • Como Jesus distinguiu os doze dos outros muitos discípulos e de que maneira a traição de Judas também se distinguiu? 70Então Jesus respondeu: ‘Não fui eu que os escolhi, os Doze? Todavia, um de vocês é um diabo!’ 71(Ele se referia a Judas, filho de Simão Iscariotes, que, embora fosse um dos Doze, mais tarde haveria de traí-lo.)” Embora as três razões para a perseverança apresentada por Pedro pudesse ser as razões para qualquer outro discípulo permanecer, Jesus os distingue por tê-los escolhido. Todos os discípulos vêm pela vivificação do Espírito, pela palavra de Jesus e pela generosidade do Pai, além disso aqueles doze vieram porque foram escolhidos. O termo usado por Jesus é o verbo gr. eklegó, do prefixo gr. ek, fora de, e o sufixo gr. legó, falar, chamar, portanto, chamados para fora do grupo de todos os discípulos. Esse chamado ou vocação, se reflete até mesmo no difícil chamado de Judas para a função que cumpriu como adversário do mestre.

[B] Tu tens as palavras de vida eterna
Este texto estabelece uma grande diferença entre os discípulos todos e um grupo chamado dentre eles por Jesus. A distinção entre o grande grupo e o grupo selecionado foi determinada pela vocação específica e possivelmente por uma dedicação tão integral que já não havia para o que ou quem irem.

  • Ação: Jesus estava lidando com a falta de perseverança de muitos dos seus discípulos, e a perseverança do grupo dos doze. Não é isso, no entanto que diferenciou os dois grupos, já que alguns dos discípulos devem ter perseverado. Os doze foram distinguidos pelo chamado que lhes deu Jesus de entre todos os discípulos.
  • Motivação: a perseverança ou a falta dela foi dependeu do diferente modo como receberam o discurso de Jesus (O pão da vida, Jo 6:25-59) em conexão com a atuação do Espírito e do Pai. Portanto, o agente da verdadeira conversão foi o próprio Deus.
  • Reação: Os que acharam as Palavras de Jesus secas e que não tinham poder para ouvi-las, tinham para o que ou quem voltar e pararam de andar com Jesus. Os que acharam as palavras de Jesus, palavras de vida eterna, não tinha para o que ou quem voltar, entenderam e sentiram quem era Jesus.

Nesta dinâmica, distingue-se de modo geral a escolha dos doze. O termo usado por Jesus para ‘escolher’, conforme o relato de João, é a base de nossa palavra ‘igreja’. A igreja foi chamada para fora, enquanto estava no mundo. Os doze foram chamados para fora enquanto estavam entre os outros discípulos. O Espírito, o Filho e o Pai operaram o chamado deles para andar com Jesus, depois, eles ainda foram novamente chamados de entre os discípulos.

[S] Nós cremos e sabemos que és o Santo de Deus
Vivemos uma crise na Igreja Brasileira. Podemos creditar esse mal à diminuição da santidade pela ambição do crescimento. Esse povo que a multiplicação dos pães, mas acha que as palavras de Jesus são secas e, quando as ouvem, voltam para trás e já não andam com Jesus. Nesse cenário, Jesus fala com aqueles a quem ele chamou dentre os discípulos todos, os vocacionados. É neles que está a esperança de continuidade e de restauração.

  • Diminuir: no cenário de abandono e desvio da fé, as vocações são feitas pelas próprias pessoas. Elas observam o que gostam e o que podem fazer e se dedicam a isso. Mas não é isso o que aprendemos sobre vocação; sabemos que é Jesus quem chama aqueles que renunciarão tudo até não terem mais para o que ou quem voltar. Portanto, pare de considerar a vocação como algo seu e entenda que o chamado é de Jesus. É ele quem vocaciona!
  • Adicionar: muitos daqueles que foram considerados discípulos de Jesus se aproximaram dele por causa da multiplicação dos pães e na expectativa de que ele se tornasse seu rei contra o Império Romano. Já aqueles vocacionados por Jesus, o conheciam pela fé e pela experiência. Sua perseverança estava firmada no relacionamento com a pessoa de Jesus. É ele quem vocaciona, a nós, cabe nos relacionarmos com Jesus.
  • Dividir: depois de perseverarem com o Senhor, mesmo através das dificuldades, aqueles discípulos chamados para fora, escolhidos, receberam a incumbência de também discipular. Nesse esforço ensinaram com palavras e com o exemplo que dentre todos os discípulos há ainda aqueles que são vocacionados.
  • Multiplicar: embora a desistência de muitos, a perseverança é determinada pelas palavras de vida eterna. Jesus estabeleceu o seu Reino pregando e, que alguns achassem sua pregação muito dura, não o inibiu de continuar pregando. Mais tarde, ele deu a nós essa responsabilidade. É pela pregação da palavra de Jesus que as pessoas se tornam discípulos e depois são chamadas para continuar esse ministério.

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José Bernardo é o fundador e presidente da Agência Missionária de Mobilização Evangelística – AMME e diretor da escola de liderança para adolescentes e jovens – Pacificadores.

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